20 anos sem o “Mágico” Senna
1 Maio 2014 - José Soares da Costa

1 de Maio de 1994. O que para muitos seria apenas mais um Dia do Trabalhador, tornou-se no dia que muitos ainda recordam passados 20 anos. Em Portugal, foram milhares os adeptos que à hora do almoço, rodeados com as suas famílias, assistiram em directo ao trágico desaparecimento daquele que é ainda para muitos, o melhor piloto de todos os tempos: o brasileiro Ayrton Senna da Silva.

Nascido em 1960, Ayrton Senna começou desde cedo a demonstrar a sua apetência para o automobilismo, começando a sua carreira nos karts. Após duas participações no Campeonato do Mundo de Karting (1979 e 1980), onde foi batido por Terry Fullerton, transitou para os monolugares da Formula Ford. Na temporada de 1982, conquistou os títulos na Fórmula Ford 2000 Britânica e Europeia.  Em 1983, Senna ascendeu à Fórmula 3 e após uma dura batalha com Martin Brundle ao longo da temporada, conquistou o título da categoria na última corrida. Nesse mesmo ano, o piloto brasileiro alcançou a vitória no prestigiado Grande Prémio de Macau de Fórmula 3.

1984 foi o ano da estreia na Fórmula 1. Após 3 testes, com a Brabham, Williams e Mclaren, Ayrton Senna optou por um contrato com a modesta Toleman, equipa onde não teria qualquer pressão para obter resultados. No Grande Prémio do Mónaco, 6ª prova da temporada, Senna surpreendeu tudo e todos, terminando na 2ª posição debaixo de uma chuva diluviana. O vencedor desta prova? Alain Prost, em Mclaren, depois de uma decisão controversa de Jacky Ickx (director de prova), que havia optado por terminar prematuramente o Grande Prémio.

Para 1985, Senna transitava para a Lotus e tinha pela primeira vez um monolugar capaz de vencer Grandes Prémios. Com o potente motor Renault V6 Turbo e os seus 1300 cv, Senna deslumbrava nas qualificações e conquistava pole position atrás de pole position. A 1ª vitória viria no Grande Prémio de Portugal de 1985, debaixo de chuva torrencial. A sua mestria ao volante fez com que terminasse com uma volta de avanço relativamente a 7 dos 8 pilotos que completaram essa prova. Michele Alboreto, em Ferrari, terminou na 2ª posição a 1m02s de distância.

Em 1987, a Lotus trocou os motores Renault pelos motores Honda e com isso, abriu-se uma porta junto da equipa com a qual alcançaria os seus maiores sucessos: a Mclaren. Em 1988, Alain Prost e Ayrton Senna formaram a dupla de sonho que todos ambicionavam. Nessa temporada, a equipa britânica conquistou 15 das 16 vitórias, falhando apenas a vitória no Grande Prémio de Itália, devido à colisão do Williams de Jean-Louis Schlesser com o Mclaren de Ayrton Senna. Seria também o ano do 1º título do piloto brasileiro, conquistado no “braço” contra Alain Prost, em Suzuka.

1989 e 1990 ficaram marcados pelo intenso duelo, dentro e fora de pistas e com muita politica à mistura, entre Alain Prost e Ayrton Senna. Nos dois anos, tudo se decidiu no Grande Prémio do Japão, em Suzuka. Prost venceria o título em 89, fruto da desqualificação de Senna e o piloto brasileiro alcançaria o título em 90, ao provocar um acidente com Prost na 1ª curva. Era esta atitude e contradição que tornava fascinante e complexa a personalidade de Ayrton Senna. Fora das pistas era conhecido pelo seu lado humano, capaz da maior generosidade possível como foi demonstrado pelo Instituto Ayrton Senna, criado para ajudar crianças carenciadas no Brasil. No entanto, dentro das pistas era um piloto implacável, movido por uma forte crença e um desejo inato pela vitória.

1991 foi o ano do seu terceiro e último título, tendo lutado com armas desiguais contra a superioridade técnica do Williams Renault FW14 de Nigel Mansell. No entanto, a extenuante vitória no Grande Prémio do Brasil, com a caixa encravada na 6ª velocidade, viria a marcar o percurso dessa mesma temporada. Em Suzuka, Mansell abandonava devido a uma saída de pista, entregando o título a Senna. Em 1992, mesmo com o enorme talento do piloto brasileiro, a Williams e Mansell dominaram e conquistaram os títulos. A guerra tecnológica estava aberta e a Mclaren havia sido batida pela equipa de Frank Williams, cujo monolugar contava com suspensão activa, caixa sequencial de 6 velocidades, ABS e controlo de tracção.

Em 1993, a Williams voltou a vencer, desta feita com Alain Prost. Com um Mclaren MP4/8, equipado com suspensão activa e motor Ford Cosworth V8, Senna efectuou algumas das suas melhores exibições de sempre. A primeira volta no Grande Prémio da Europa, em Donington Park, ficou na história como uma das melhores de sempre: Senna parte do 4º lugar da grelha, debaixo de chuva e termina a 1ª volta na liderança da prova, rumando para mais uma espectacular vitória. Pelo caminho ficaram Damon Hill, Karl Wendlinger, Michael Schumacher e Alain Prost. Nesse mesmo ano, Senna repetiria a vitória no Grande Prémio do Brasil e conquistaria o triunfo nos Grandes Prémios do Mónaco (a sua 6º vitória no Principado), Japão e Austrália, a sua última vitória na F1.

Após duas épocas sem hipótese de lutar pelo título, Ayrton Senna assinou um contrato com a Williams para 1994. No entanto, as regras haviam mudado: todas as ajudas electrónicas haviam sido banidas pela FIA. O Williams FW15 apresentava-se instável com a suspensão passiva e Senna enfrentava agora um novo oponente, com o abandono de Alain Prost: o jovem alemão Michael Schumacher, cujo método de trabalho seguia as pisadas delineadas por Senna no passado. Após dois Grandes Prémios (Brasil e Pacifico) com duas vitórias de Schumacher e sem pontos, o Grande Prémio de São Marino, disputado em Imola, era decisivo para Senna.

No entanto, o seu 162º Grande Prémio seria o derradeiro da sua carreira, reclamando algo mais importante que qualquer vitória ou pole position: a sua própria vida. Para a história ficaram as estatísticas: 65 pole positions, 41 vitórias, 3 títulos mundiais e 19 voltas mais rápidas em corrida. Para os espectadores ficaram as imagens do “Mágico”, que animava as manhãs de Domingo e trazia com cada um dos seus triunfos a contagiante alegria brasileira.  No entanto, para todos nós ficará a certeza de que não haverá outro Ayrton Senna…